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Terras raras: saiba como cidade goiana saiu da exploração de amianto para o centro da disputa internacional de minérios

Minaçu em 1983 Reprodução/IBGE Minaçu, no norte de Goiás, começou a se formar na década de 1960 e foi emancipada politicamente em 1976. A história do mu...

Terras raras: saiba como cidade goiana saiu da exploração de amianto para o centro da disputa internacional de minérios
Terras raras: saiba como cidade goiana saiu da exploração de amianto para o centro da disputa internacional de minérios (Foto: Reprodução)

Minaçu em 1983 Reprodução/IBGE Minaçu, no norte de Goiás, começou a se formar na década de 1960 e foi emancipada politicamente em 1976. A história do município está diretamente ligada à mineração. Inicialmente, a economia local se desenvolveu em torno da extração de amianto, considerado cancerígeno. Com as restrições ao mineral, a exploração de terras raras passou a representar uma nova perspectiva econômica para a região. Atualmente, o município abriga a única mineradora fora da Ásia a produzir, em escala comercial, os quatro principais elementos magnéticos de terras raras: a Mineração Serra Verde (SVPM). Recentemente, a empresa americana USA Rare Earth avançou em um processo de compra da Serra Verde, garantido os recursos necessários para concluir a transação, de US$ 1,55 bilhão. Apesar do valor, que ficará em uma estrutura financeira criada para garantir a operação, a conclusão da compra ainda depende da aprovação de acionistas em uma assembleia, marcada para sexta-feira (28). 🔎 As terras raras formam um grupo de 17 elementos químicos essenciais para o funcionamento de diversos produtos modernos — de smartphones e televisores a câmeras digitais e LEDs. Apesar de usados em pequenas quantidades, eles são insubstituíveis. ✅ Clique aqui e siga o perfil do g1 Goiás no WhatsApp De acordo com informações da prefeitura, a formação do município está relacionada à implantação do parque industrial da Sama Minerações Associadas, na região da Serra de Cana Brava. O projeto contribuiu para o surgimento de um povoado que, posteriormente, receberia o nome de Minaçu, que tem origem tupi-guarani e significa "mina grande". Em 1965, a Sama obteve autorização para realizar pesquisas na região. Dois anos depois, recebeu do Departamento Nacional de Produção Mineral o decreto de lavra e instalou uma usina-piloto. A partir disso, a atividade industrial se consolidou como a principal base da economia local. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atualmente o municipio conta com cerca de 27 mil habitantes. Ao g1, a geógrafa e moradora de Minaçu, Nelsylene Souza, relatou que a a parte positiva da mudança é a garantia de mercado e o aumento de emprego. No entanto, para quem vive na cidade, existem pontos negativos. "Com o aumento da população, os alúgeis subiram de forma exacerbada", disse. Agora no g1 STF proíbe extração de amianto Sama, indústria de amianto, em Minaçu Divulgação/Câmara Municiapal de Minaçu Por décadas, o amianto foi o principal motor econômico de Minaçu. Esse cenário começou a mudar com as decisões judiciais que restringiram a extração e o uso do mineral. Em 2017, o Supremo Tribunal Federal (STF) considerou válidas cinco leis estaduais e uma municipal que restringiam ou proibiam a extração e o uso do amianto crisotila. Segundo a Corte, as decisões levaram em consideração a natureza comprovadamente cancerígena do amianto, a impossibilidade de garantir seu uso de forma efetivamente segura e a existência de matérias-primas alternativas. O julgamento foi concluído em fevereiro de 2023, quando o Plenário confirmou a inconstitucionalidade da norma federal que autorizava a extração, a industrialização, a comercialização e a distribuição da crisotila. Mesmo após a decisão, em 2024, a Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) estabeleceu prazo de cinco anos para o encerramento das atividades de extração e beneficiamento do amianto na mina de Cana Brava. A medida teve como objetivo permitir uma transição gradual da atividade e reduzir os impactos econômicos, sociais e ambientais na região produtora, além de estabelecer um planejamento para a recuperação da área após o fechamento da mina. Em março de 2025, o STF retomou o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 6200, que questiona a validade da lei goiana que autorizou a extração de amianto em Minaçu para exportação. Na ocasião, porém, os ministros não chegaram a uma decisão definitiva. Em 10 de abril de 2026, o julgamento foi retomado. No entanto, o ministro Luiz Fux pediu vista dos autos - período que concede mais tempo para analisar o caso antes de votar -, e a decisão foi adiada novamente. LEIA TAMBÉM: Mina de terras raras vendida a empresa dos EUA por US$ 2,8 bilhões em Goiás: o que muda na prática? ECONOMIA: Terras raras em Goiás: exploração pode gerar mais de 12 mil empregos diretos PARCERIA: Terras raras em Goiás: estado assina parceria com Japão para extrair minerais Terras raras surgem como nova alternativa econômica Terras raras: mineradora de Goiás conquista destaque mundial na mineração Com o declínio da atividade ligada ao amianto, as terras raras ganharam espaço como uma nova possibilidade de desenvolvimento para Minaçu, a partir da Serra Verde Pesquisa e Mineração (SVPM), responsável pelo projeto Pela Ema. Ao g1, o prefeito Carlos Leréia (PSDB) destacou a importância do investimento para a economia local. Segundo o prefeito, o empreendimento já trouxe impactos positivos para o município e deve ampliar a arrecadação nos próximos anos. A expectativa é que a produção atinja o auge entre 2027 e 2028. A trajetória da Serra Verde começou em 2010, quando a empresa apresentou à Agência Nacional de Mineração (ANM) pedidos de pesquisa que abrangiam 23 áreas entre Goiás e Tocantins. O objetivo era avaliar o potencial geológico da região. Trabalhadores que atuam na extração de terras raras, em Minaçu Divulgação/Serra Verde Em 2017, a companhia obteve a licença prévia e, no ano seguinte, iniciou a execução do projeto Pela Ema. A expectativa é produzir pelo menos 5 mil toneladas de óxido de terras raras por ano. Após anos de estudos e implantação, a empresa recebeu a licença ambiental de operação em 2023 e iniciou a produção comercial em 2024. A Serra Verde está instalada sobre um dos maiores depósitos de argila iônica de terras raras fora da Ásia. O tipo de depósito, segundo a empresa, apresenta vantagens competitivas e ambientais, além de estar em uma área de mineração consolidada e próxima a uma infraestrutura de energia renovável. De acordo com o Ministério de Minas e Energia (MME), a Serra Verde é a única mineradora fora da Ásia a produzir, em escala comercial, os quatro principais elementos magnéticos: neodímio (Nd), praseodímio (Pr), disprósio (Dy) e térbio (Tb). Esses elementos são utilizados na fabricação de ímãs de alto desempenho, empregados em tecnologias como veículos elétricos, equipamentos eletrônicos, sistemas de geração de energia e equipamentos militares. O potencial brasileiro também chama atenção internacionalmente. Segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China. Minaçu no centro da disputa global Mineração Serra Verde, em Minaçu Divulgação/Serra Verde A relevância da produção de Minaçu aumentou com o interesse internacional pelas terras raras e pela busca de alternativas à cadeia de fornecimento concentrada na Ásia. Em abril de 2026, a empresa americana USA Rare Earth anunciou um acordo para adquirir a Serra Verde em uma operação avaliada em cerca de US$ 2,8 bilhões. A proposta prevê a integração das atividades das duas companhias para formar uma cadeia de produção que vai da extração à fabricação de ímãs fora da Ásia. Na ocaisão, Ricardo Grossi, presidente e diretor de operações da Serra Verde, informou ao g1 que a venda não irá promover mudanças imediatas na operação no Brasil e que a gestão local segue inalterada. “A mina e a planta em Minaçu seguem operando normalmente, sob a liderança da equipe atual, com continuidade da estratégia já em curso. A operação permanece focada no ramp-up e na expansão previstos, e a gestão local segue inalterada. Ao mesmo tempo, o acordo fortalece a empresa ao dar acesso a tecnologia ao longo de toda a cadeia produtiva e maior integração global, sem alterar o dia a dia da operação”, explicou. Segundo o prefeito Carlos Leréia, a população encara com otimismo o investimento em terras raras na região, tendo em vista que a perda da extração de amianto. “A Serra Verde preencheu esse espaço ofertando emprego e aumentando a movimentação econômica da cidade”, destacou ao g1, em abril de 2026. Riscos do amianto e preocupação com as terras raras Segundo o ambientalista Álvaro De Angelis, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o amianto como cancerígeno em todas as suas formas e não estabelece um nível seguro de exposição. “A inalação das fibras provoca doenças respiratórias graves e, principalmente, mesotelioma, câncer do tecido que reveste os pulmões e outros órgãos, de altíssima letalidade e longuíssimo período de latência. Os sintomas podem levar décadas para aparecer”, afirmou. De acordo com o ambientalista, é justamente pelos riscos à saúde que mais de 65 países proíbem ou restringem o uso do amianto. Em relação às terras raras, Álvaro explica que os riscos são diferentes dos associados ao amianto. Segundo ele, não há evidências de que esses elementos sejam cancerígenos por simples exposição ambiental, como ocorre com o amianto. No entanto, ele alerta que existem outras preocupações ambientais relacionadas à atividade. “O processamento de terras raras, não a mineração bruta em si, é a etapa mais problemática. A separação dos elementos usa ácidos em larga escala e pode gerar rejeitos com tório e urânio, que são radioativos”, explicou. Álvaro também faz uma comparação entre a exploração do amianto e a atual atividade de terras raras em Minaçu. Para ele, a cidade manteve durante mais de 50 anos uma relação econômica de extrema dependência com a mineradora, sem diversificação, o que contribuiu para o colapso econômico após a proibição da atividade. O ambientalista questiona, ainda, se a história pode se repetir com as terras raras, principalmente caso o minério seja exportado sem que o processamento e a geração de valor permaneçam no Brasil. “A pergunta que pesquisadores e movimentos socioambientais fazem agora é se a história vai se repetir com terras raras: exportação do minério bruto sem que o valor do processamento fique no Brasil, e sem que os riscos ambientais — diferentes dos do amianto, mas reais — sejam adequadamente monitorados desde já, antes que a cidade fique de novo refém de uma única atividade”, disse. Mineradora Serra Verde explora quatro elementos de terras raras em Minaçu. Arte/g1 📱 Veja outras notícias da região no g1 Goiás. VÍDEOS: últimas notícias de Goiás

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